Omã sob os olhos de uma brasileira

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Depois de publicar um post com bastante informação sobre o Sultanato do Omã, o Blog do Bilhete Premiado convida a leitora e viajante independente Natasha Nunes pra contar como é o Omã sob os olhos de uma brasileira!

Ela decidiu viajar sozinha pelo Omã e deixou sua experiência! Quer saber mais? Se liga aqui que o relato dela tá sensacional! E vai se preparando pra ficar com (ainda) mais vontade de ir para o Omã!


Passei cinco dias sozinha em Omã.

Coragem!

é a primeira reação que ouço quando conto.

Foi a decisão mais acertada da vida

é a minha resposta.

Decidi ficar em Omã como um stop na minha viagem rumo à Austrália. Eu queria conhecer a cultura árabe, queria vivenciar o diferente e uma pesquisa simples no Google Maps, conjugada com o Wikipedia, mostrou-me que Omã ficava a apenas uma hora de voo de Dubai, sendo uma sociedade árabe muçulmana tradicionalíssima, mas segura e aberta ao turismo ocidental. Confirmei isso com dois amigos que estiveram neste pedacinho de mundo antes de mim – ambos saíram encantados de lá – e não tive dúvidas.

Construções típicas do Omã (Foto: Natasha Nunes.)

Construções típicas do Omã (Foto: Natasha Nunes.)

Mas… sozinha? Sim. E por que não?

Como sempre planejo meus roteiros, procurei informar-me sobre eventuais cuidados que uma mulher ocidental viajando sozinha ali deveria tomar. Encontrei apenas uma recomendação especial: roupas.

Cubra os ombros e também as pernas pelo menos até os joelhos. Não que você será hostilizado pelos locais caso não o faça, mas, vamos combinar: se estou saindo do outro lado do mundo para conhecer uma cultura tão diferente da minha, por que não a respeitar ao invés de querer impor meus costumes ou afrontá-los com costumes distintos?

Por respeito e cortesia, escolhi as saias longas, costurando suas fendas, coloquei as batas leves de manga longa nas malas e levei um lenço para me cobrir nas mesquitas.

Natasha entre os corredores da imensa Mesquita do Sultão Qaboos. (Foto: Natasha Nunes.)

Natasha entre os corredores da imensa Mesquita do Sultão Qaboos. (Foto: Natasha Nunes.)

O Omã também tem praias, mas é preciso se vestir da maneira adequada. (Foto: Natasha Nunes.)

O Omã também tem praias, mas é preciso se vestir da maneira adequada. (Foto: Natasha Nunes.)

Meu objetivo era desbravar o máximo possível em cinco dias e o país oferecia muitas possibilidades: cidades históricas, deserto, cânion, oásis… muitos turistas percorrem as modernas estradas do país independentemente, alugam um carro e tocam em frente. Isso porque o país é moderno, dotado de ótima infraestrutura rodoviária e de telecomunicação (sim, eu tive internet até na entrada do deserto!!!) e bilíngue: placas em árabe e inglês mesmo depois de percorrer 400km país adentro.

Alugar carro para uma mulher viajando sozinha, porém, não me parecia a melhor estratégia. Pensei num pneu furado no meio do nada ou na sensação de me sentir perdida em meio ao deserto ou às montanhas, esperando sabe-se lá o quê… optei pelo sossego de contratar uma agência de viagens.

Natasha e o guia omani, entre as plantações de tâmaras do interior do Omã. (Foto: Natasha Nunes.)

Natasha e o guia omani, entre as plantações de tâmaras do interior do Omã. (Foto: Natasha Nunes.)

Em Wahiba Sands, o deserto mais famoso do Omã. (Foto: Natasha Nunes.)

Em Wahiba Sands, o deserto mais famoso do Omã. (Foto: Natasha Nunes.)

Pacotes montados?

Claro que não, não é nem meu estilo e nem eu tinha tanto tempo para desperdiçar. Com ajuda do TripAdvisor, localizei uma agência de viagens que fazia passeios de pequenos grupos a preços razoáveis, a Mark Tours. Montei meu roteiro, incluindo reservas num camping no deserto, numa casa no meio às montanhas árabes e a entrada para a ópera na capital.

Eles toparam fazer do meu jeito e designaram um motorista-guia que ficou por minha conta nestes dias. Claro que pagar um passeio assim, que seria para quatro pessoas, fica mais caro… mas eu já estaria do outro lado do mundo e o custo de oportunidade falou mais alto. Zero arrependimento. E lá fui eu…

Na conexão de Dubai para Mascate, a capital de Omã, realizei o que estava acontecendo. No avião inteiro, voo cheio, somente eu e mais quatro mulheres sem véu. Viajando sozinha, o número caía para mais duas. Não nego que fiquei um pouco receosa… observava a reação das pessoas, mas, para meu espanto, nenhum olhar mais invasivo, ou de curiosidade exacerbada. Nenhum olhar de reprovação ou de intimidação.

Mesquita omani no interior do país. (Foto: Natasha Nunes.)

Mesquita omani em Mascate. (Foto: Natasha Nunes.)

Típico casal omani na orla de Mascate. (Foto: Natasha Nunes.)

Típico casal omani na orla de Mascate. (Foto: Natasha Nunes.)

Ao entrarmos no ônibus que levava até a aeronave, os homens que estavam sentados no banco maior levantaram-se todos, deixando o espaço para mim e mais duas mulheres, onde caberiam oito. Quanta cortesia onde eu esperaria mais subserviência! Foi minha primeira surpresa.

Pousamos em Mascate e, ao sair do aeroporto, o motorista do hotel veio me buscar: seu traje branco (o Dishdasha) com a típica “touca” também branca (a Ghafiya) naquele aeroporto que imitava um pequeno castelo árabe me transportaram a Homeland e senti-me entrando no seriado (perdoem-me os que não assistem tanto Netflix!rs).

O trajeto até o hotel foi curto e, apesar de em meio à madrugada, senti-me segura. O motorista sempre muito gentil e respeitoso, falando inglês compreensivelmente, distraiu-me no caminho – e, claro, perguntou do Neymar ao saber que eu era brasileira: pouquíssimos brasileiros vêm aqui, ele disse. Meus conterrâneos não sabem o que estão perdendo.

Natasha entre os arcos da Grande Mesquita do Sultão Qaboos. (Foto: Natasha Nunes.)

Natasha entre os arcos da Grande Mesquita do Sultão Qaboos. (Foto: Natasha Nunes.)

Apesar de me sentir segura todo o tempo que estive no Omã, não posso negar que pisei em ovos em boa parte dos momentos. E não porque os locais me impusessem qualquer constrangimento ou porque faltasse informação ou cordialidade. Mas por medo e condicionamento meus, por ainda não saber quais palavras e quais gestos poderiam levar a mal-entendidos ou me levar a cometer gafes culturais horrendas. E meu primeiro passeio foi bem assim…

Escolhi um hotel perto da Grande Mesquita para poder aproveitar logo o primeiro dia de chegada e visitá-la (só é permitida visitação entre 8h e 11h da manhã). Levantei-me cedo e segui caminhando para a Mesquita. Apenas quatro quadras, mas intermináveis psicologicamente. Do momento que saí do hotel até a porta da Mesquita, vários carros passaram desacelerando e dando leves buzinadas, alguns me ofereceram carona.

Sempre com muito respeito, nenhuma cantada, nenhuma maldade, mas aquilo me intrigou e fiquei me perguntando o que eu estava fazendo de errado. Será que mulheres não deviam andar sozinhas pelas ruas? Que nada, nos outros dias eu veria outras andando (não muitas, mas havia).

Cenário do Omã, com a região montanhosa ao fundo - diferente do resto do Oriente Médio. (Foto: Natasha Nunes.)

Cenário do Omã, com a região montanhosa ao fundo – diferente do resto do Oriente Médio. (Foto: Natasha Nunes.)

Arquitetura omani - um prato cheio pra quem quer conhecer mais do mundo árabe! (Foto: Natasha Nunes.)

Arquitetura omani – um prato cheio pra quem quer conhecer mais do mundo árabe! (Foto: Natasha Nunes.)

Será que é minha roupa? Chequei: vestido longo, blusa de manga longa, nenhum decote… Meu Deus, será que é uma afronta usar vermelho???. A cada passo que dava olhava sem graça ao meu redor. Quando passava algum carro e buzinava, ficava sem graça pensando o que significaria o vermelho.

Ao entrar na Mesquita, fui tão bem recebida e nada de me proibirem de entrar de vermelho que estranhei. Mais tarde, eu descobriria que o vermelho é, na verdade, uma cor de respeito à religião e que todo meu constrangimento fora invenção da minha cabeça. Monstros internos, não externos. Ainda bem.

Andei pelas ruas da cidade à tarde para fazer o câmbio por moeda local. Shoppings, ruas largas e asfaltadas, pessoas em estilo árabe, outras em estilo ocidental. Construções modernas e bairros de casas tipicamente árabes.

O Omã se desmistificava e quanto mais eu andava, mais eu percebia que as pessoas não reagiam com estranhamento a mim, sentia-me tão segura, tão mais segura do que andando pelas ruas do Brasil, mesmo sozinha e com a câmera em mãos. E assim foi pelo resto da minha viagem. Pessoas simpáticas, abertas, interessadas pela minha cultura e, em momento algum, desrespeitosas.

Natasha, sozinha na Mesquita do Sultão Qaboos. (Foto: Natasha Nunes.)

Natasha, sozinha na Mesquita do Sultão Qaboos. (Foto: Natasha Nunes.)

Passeio de camelo por Wahiba Sands, o deserto do Omã. (Foto: Natasha Nunes.)

Passeio de camelo por Wahiba Sands, o deserto do Omã. (Foto: Natasha Nunes.)

Não vou negar que viajar sozinha pela primeira vez pelo mundo árabe deu frio na barriga vez ou outra. Até mesmo o fato de compartilhar os quatro dias com meu motorista, cruzando várias regiões e sem saber os limites do que falar ou que fazer sem ser mal interpretada, foi um desafio. Nada que o respeito mútuo não desse conta e, depois, terminássemos ora dançando as músicas árabes que ele me apresentava, ora as músicas pops com batida mais agitada que ele me pedia para buscar no meu Spotify.

Assim como eu tomei cuidado para não romper as fronteiras culturais – bastavam-me as geográficas – recebi de retorno o respeito pelos meus limites e meus gostos. Sem preconceitos ou animosidades, apenas curiosidade e receptividade da minha parte e dos locais. Se muitos achavam que seria coragem viajar sozinha por Omã, para mim, foi mais uma oportunidade da desconstrução do óbvio, de mais uma descoberta do humano e do conhecimento da diversidade.

Natasha no Wadi Bani Khalid, um dos oásis do Omã. (Foto: Natasha Nunes.)

Natasha no Wadi Bani Khalid, um dos oásis do Omã. (Foto: Natasha Nunes.)

Vai sozinha para Omã? Eu indico:

  • Use roupas de manga comprida e saias longas (abaixo dos joelhos) ou calças mais largas. Esqueça-se das roupas justas e dos decotes por uma questão de respeito.
  • Leve uma roupa de academia (blusa de manga curta e calça capri ou bermuda comprida) para nadar no oásis, não use biquíni. Ainda que você veja outros turistas com trajes de banho ocidentais, é desrespeitoso, pode causar constrangimento às famílias (e não a você!). Há até placa do governo pedindo respeito…
  • Se puder contratar um guia para levar você às montanhas ou ao deserto, melhor. Não porque seja violento, mas os passeios são afastados da cidade e a última coisa que você pode querer é entrar em alguma furada como perder um pneu ou se perder e não ter com quem contar. E você ainda aprende mais sobre os costumes locais!
  • Carregue sempre água com você porque o calor é forte e os trajetos longos.
  • Na cidade de Mascate, os taxistas são muito gentis e eles mesmos oferecem passeios pela cidade ou a algumas cidades nos arrededores cobrando uma tarifa pelo dia. Você pode perguntar no seu hotel também. É uma boa alternativa às agências de viagens se você for fazer um bate-e-volta para visitar Nizwa, alguns dos fortes ou atrações não tão distantes.
  • Mesmo na praia, as mulheres locais usam seus trajes longos e véus e você verá majoritariamente homens por ali. Não se constranja, pode caminhar à vontade, descansar… mas, mais uma vez, tente respeitar os figurinos locais.
  • A cidade à noite é bem quieta. Se for sair para jantar ou para a ópera, combine com seu taxista. Não parece haver violência, mas as ruas ficam mesmo bem vazias porque não existe “vida noturna” em Omã, especialmente para as mulheres.
A Grande Mesquita do Sultão Qaboos, em Mascate. (Foto: Natasha Nunes.)

A Grande Mesquita do Sultão Qaboos, em Mascate. (Foto: Natasha Nunes.)


Viajante contumaz, Natasha não se intimida se não tiver companhia pra viajar. Pra ela, o mais importante é sempre conhecer novos locais e novas culturas, afinal, antes viajando só do que parada em casa, não é mesmo?

Caso ainda não tenha lido o outro post do Omã, clique aqui pra saber um pouco mais do que o destino te reserva!

Reserve aqui o seu hotel em Mascate.

Aqui pra reservar o seu hotel em Nizwa.

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Zona costeira de Mascate. (Foto: Natasha Nunes.)

Zona costeira de Mascate. (Foto: Natasha Nunes.)

O salão principal e o imenso lustre da Grande Mesquita do Sultão Qaboos. (Foto: Natasha Nunes.)

O salão principal e o imenso lustre da Grande Mesquita do Sultão Qaboos. (Foto: Natasha Nunes.)

2 Responses

  1. debbborges
    debbborges 08/08/2017 at 5:32 pm |

    Adorei o relato da Natasha e fiquei com vontade de conhecer Omã. Obrigada por partilhar!!

  2. Alexandre Canuto
    Alexandre Canuto 09/08/2017 at 2:11 pm |

    Parabens, Natasha, pela criatividade, coragem de desmistificar e belíssimo relato. Alexandre Canuto

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